Resumo:
O território do Estado do Rio Grande do Sul pode ser dividido em duas unidades
biogeográficas distintas, que reúnem ecossistemas com características naturais
semelhantes, como clima, vegetação, fauna e relevo: os biomas Mata Atlântica e Pampa.
O bioma Mata Atlântica é formado por um conjunto de ecossistemas cuja matriz de
paisagem é representada pelas florestas tropicais. Ao contrário, na porção sul do estado a
matriz é formada predominantemente por campos temperados entremeados de capões
arbustivos e matas de galeria. Os dois biomas suportam alta diversidade. A riqueza de
espécies de abelhas é influenciada por fatores como latitude, clima e tipo de vegetação, e
é maior em regiões temperadas e secas. No Brasil, a diversidade de abelhas aumenta do
bioma Cerrado para o Pampa, bioma exclusivo do Estado do Rio Grande do Sul e
conhecido pela alta diversidade de ecossistemas e espécies endêmicas, mas com baixa
representação no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). A Área de
Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã é uma das poucas áreas protegidas da região,
mas pouco se conhece sobre sua fauna de abelhas, essencial para a compreensão e
manutenção dos processos ecológicos locais. A primeira parte deste estudo revisou os
registros de ocorrência de abelhas nos municípios da APA do Ibirapuitã, com base em
dados obtidos em coleções biológicas digitalizadas, incluindo fontes como o speciesLink,
o Global Biodiversity Information Facility (GBIF) e o Catálogo Moure de Abelhas da
Região Neotropical. O levantamento também incorporou informações de estudos
anteriores realizados na região. Foram identificados 119 táxons de abelhas, com 97
espécies confirmadas, na região da APA do Ibirapuitã. A diversidade da fauna de abelhas
e suas relações peculiares com a flora local destacam a importância da conservação dessas
espécies para a manutenção dos ecossistemas campestres locais. A segunda parte do
trabalho abordou as abelhas da tribo Meliponini, também chamadas de abelhas-sem ferrão, reconhecidas por sua importância para o serviço ecossistêmico de polinização, da
vegetação nativa e de diversos cultivos agrícolas. A tribo tem distribuição Pantropical e
alta diversidade na Amazônia, enquanto o Rio Grande do Sul está localizado próximo ao
limite meridional de distribuição de suas espécies. O manejo das abelhas-sem-ferrão é
denominado meliponicultura e, por utilizar espécies da fauna silvestre é restrita às
espécies de ocorrência local, listadas nas normas ambientais. Desta forma, o
conhecimento sobre a distribuição das espécies é essencial para seu manejo e
conservação, especialmente das espécies ameaçadas e endêmicas. A lista de espécies de
Meliponini do Rio Grande do Sul foi revista e ampliada, incorporando novos registros de
ocorrência e recentes alterações taxonômicas, resultando em 27 espécies de abelhas-sem ferrão. O estudo reforça a importância ecológica das abelhas para os ecossistemas do
Pampa e da Mata Atlântica, destacando a necessidade de políticas públicas de
conservação baseadas em dados científicos. O trabalho contribui para o Plano de Manejo
da APA do Ibirapuitã e atualização das listas de espécies de Meliponini contidas no
Catálogo Nacional de Abelhas-Nativas-Sem-Ferrão e na normativa reguladora da
meliponicultura no Rio Grande do Sul.