Resumo:
As mudanças climáticas globais têm intensificado a ocorrência de eventos
hidrológicos extremos em diversas regiões do planeta, tornando as inundações um
dos desastres naturais mais recorrentes e impactantes do século XXI. No Rio Grande
do Sul, registros hidrológicos e dados fluviométricos indicam uma tendência de
aumento na frequência e intensidade das inundações a partir dos anos 2000,
fenômeno que dialoga com o aumento da temperatura média global e com as
projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), as quais
apontam a ampliação dos eventos extremos na região para as próximas décadas. No
município de Montenegro, esse processo se manifesta de forma evidente, uma vez
que a cidade possui longa história de convivência com as inundações. Os eventos
extremos ocorridos entre 2023 e 2024, que representam a maior sequência de
desastres hidrológicos da história do município, expuseram de forma dramática a
população montenegrina, evidenciando a urgente necessidade de estratégias
voltadas à gestão de riscos e à construção de resiliência climática. Nesse contexto,
este estudo discute o papel da inteligência territorial como instrumento estratégico na
construção de uma cultura de prevenção e adaptação às mudanças climáticas.
Partindo da compreensão de que, embora exista uma ampla disponibilidade de
informações científicas e ferramentas de monitoramento e alerta de desastres, ainda
persistem lacunas significativas na difusão social desse conhecimento, tornando
essencial a ampliação da consciência coletiva voltada à gestão preventiva de
desastres. A pesquisa parte do pressuposto de que o período posterior às grandes
inundações representa uma rara janela de oportunidades para a implantação de ações
estruturantes de educação socioambiental para resiliência climática, antes que o
fenômeno da amnésia ambiental geracional — caracterizado pelo esquecimento
progressivo dos desastres ao longo do tempo — resulte na redução das prioridades
políticas e sociais atribuídas ao tema. Esta pesquisa, de natureza aplicada e caráter
diagnóstico-propositivo com validação exploratória, propõe o Laboratório de
Inteligência Territorial do Rio Caí (LABiCAÍ), uma tecnologia social fundamentada em
uma epistemologia territorial que articula resiliência socioambiental e educação
baseada no lugar, a qual possibilita que o território seja a base da produção do
conhecimento e da ação educativa voltada ao fortalecimento da resiliência às
inundações. O LABiCAÍ estrutura-se como um modelo educativo baseado no
conhecimento do lugar, atuando diretamente nas escolas e visando difundir
conhecimentos sobre dinâmica fluvial, bacia hidrográfica, vulnerabilidade territorial e
estratégias de prevenção aos desastres naturais para toda a sociedade. Ao promover
a compreensão do território e dos processos naturais vinculados às inundações por
meio da integração entre educação ambiental, gestão territorial e cultura de
prevenção, iniciativas como o LABiCAÍ têm potencial para o desenvolvimento de uma
inteligência social do lugar, uma inteligência territorial capaz de fortalecer a
capacidade adaptativa da população, estimular a participação social na gestão de
riscos e contribuir para a construção de uma nova identidade socioambiental e cultural
a Montenegro, direcionada pela resiliência climática e pela busca de soluções de
longo prazo para a convivência com a dinâmica fluvial do Rio Caí, contribuindo para a
construção de uma sociedade mais resiliente às mudanças climáticas.