Resumo:
A predação por perfuração é reconhecida pela presença de orifícios tipicamente preserváveis, sobre uma variedade de organismos, podendo ser preservados como completos ou incompletos. Os dois principais tipos de furos de predação reconhecidos (Oichnus simplex e O. paraboloides), realizados pelas duas famílias de gastrópodes Muricidae e Naticidae sobre bivalves e outros organismos, respectivamente, tem permitido a análise da forma, do tamanho e da posição dos furos, proporcionando a compreensão de alguns aspectos do comportamento dos predadores os quais provavelmente executaram a predação. O objetivo do presente trabalho foi analisar traços biológicos preservados em conchas de bivalves marinhos que remetem a interações ecológicas com outros organismos. Para tal, dezoito amostras de sedimento praial foram coletadas, utilizando quadrantes (0,35 x 0,35 m) e amostrando 0,05 m de profundidade (total de 0.006 m3 por amostra), ao longo da faixa praial de La Paloma (distrito de Rocha, Uruguai), em dois setores, sendo eles: Playa Del Faro e Laguna de Rocha. A espécie de bivalve utilizada como foco deste trabalho é a Glycymeris longior, devido a sua expressiva representatividade. Com o auxílio de um paquímetro digital (resolução de 0,01mm), foram mensurados: o comprimento, altura e a largura máxima das valvas de todos os espécimes coletados, analisados a ocorrência de traços de predação, a posição do furo, o sucesso (furo completos) do predador, ou fracasso (furos incompletos); nas conchas predadas foram mensurados os diâmetros internos (dI) e externo (dE) dos furos, identificando assim, os dois principais tipos de furos de predação. Além de análises como integridade da concha, ocorrência de bioerosão e os possíveis agentes bioerosivos, realizados também, nas demais espécies presentes na amostra. No total, 1399 espécimes de Glycymeris longior foram mensurados, sendo que (~21,3%, n=298) apresentam orifícios de perfuração. A frequência de predação, foi de ~42%. As conchas predadas apresentam diâmetro externo maior que o diâmetro interno. Dessa forma, todos os furos são aqui creditados a gastrópodes da família Naticidae (Oichnus paraboloides). O maior espécime predado apresenta tamanho corporal de 15,66mm e o menor de 1,73mm; o maior espécime não predado, 25,41mm e o menor 1,69mm. Conclui-se que a maior frequência de predação está associada a estados ontogenéticos mais juvenis das presas, podendo indicar que os gastrópodes predadores estão exercendo uma pressão seletiva do tipo top-down sobre os espécimes de Glycymeris longior.