Resumo:
Na América Latina o neoextrativismo adotado como modelo de desenvolvimento
econômico tem causado prejuízos ambientais, sociais, culturais e econômicos. Esse
modelo de desenvolvimento, que extrai recursos naturais até atingir seu esgotamento,
ganhou força no século XXI com o boom das commodities. A mineração é uma das
expressões mais contundentes que evidencia a verocidade de como o neoextrativismo
exerce pressões sobre os territórios e recursos naturais em diferentes regiões da
América Latina. Assim, tanto áreas urbanas quanto rurais, têm sofrido consequências
irreparáveis geradas pela prática da mineração. Os embates entre as grandes
corporações do setor minerário, Estado e a sociedade civil tem deflagrado conflitos
socioambientais entre frentes que atuam para legitimar a mineração como modelo de
desenvolvimento e os que deslegitimam em atos de resistência. Nesse contexto, o Rio
Grande do Sul (RS) tem sofrido com a pressão neoextrativista de grandes projetos
minerários, os quais vem ganhando capilaridade em diferentes regiões do estado. Na
região metropolitana, a empresa Copelmi Mineração Ltda. pretende instalar a maior
mina de carvão à céu aberto do Brasil, intitulada Mina Guaíba. O projeto em questão
tem como objetivo a instalação de uma mina de carvão à céu aberto em uma área de
aproximadamente 5000 hectares entre os municípios de Eldorado do Sul e
Charqueadas. A intenção da mineradora é extrair aproximadamente 166 milhões de
toneladas de carvão mineral bruto, areia e cascalho em um período de 23 anos de
operação. O projeto prevê a desapropriação e desterritorialização das comunidades
do Loteamento Guaíba City, em Charqueadas, e do Assentamento da Reforma
Agrária Apolônio de Carvalho, em Eldorado do Sul. No entanto, o projeto Mina Guaíba
tem enfrentado resistência da sociedade civil e dos movimentos ambientalista, social,
acadêmico/científico e de mulheres que lutam pela soberania da terra e de seus
direitos. O objetivo dessa pesquisa consiste em compreender as dinâmicas
socioambientais e políticas que configuram as lutas territoriais geradas em
decorrência do projeto de mineração Mina Guaíba no estado do Rio Grande do Sul.
Como orientação metodológica geral, o trabalho fez uso da Teoria do Ator-Rede, a fim
de mapear o conflito e seguir os atores sociais envolvidos. As considerações finais
apontaram que a proposta neoextrativista de desenvolvimento econômico imposta por
governos e empresas transnacionais configura uma falácia, visto que a
mercantilização da natureza resulta em passivos ambientais e aumento da
desigualdade social. E, embora o Estado e as mineradoras sigam na tentativa de
legitimar tais empreendimentos, os movimentos contrários à megamineração se
mantêm firmes ao compor diferentes mecanismos de resistência, seja através de
protestos, pesquisa, contra laudos ou pressão ao poder público.